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30 de Outubro de 2020

Apenas um(a) Advogado (a) Latino Americano (a)

Reflexões e conselhos importantes e práticos para o início na advocacia brasileira.

Lauber Vinícius, Advogado
Publicado por Lauber Vinícius
mês passado

No momento que saímos da faculdade, após 5 (cinco) anos de aprendizados e superações, quando não raro também uma série de frustrações e obstáculos, ainda há, para aqueles que não conseguiram passar durante os últimos períodos da faculdade, a aprovação na prova da OAB. É certo que, no anseio do exercício da advocacia por escolha própria, ou de forma temporária (até passar em um cargo público, por exemplo), logo nos deparamos com um novo mundo. O choque desta nova realidade nos invade de imediato, principalmente quando não conseguimos estagiar em um escritório de advocacia por qualquer motivo, e, assim, este novo desafio requer a coragem necessária para seu enfrentamento.

Por isso, é importante que, no momento que optamos por este caminho, devemos ter a consciência da realidade de nosso País. Não adianta fantasiarmos com realidades e rotinas forenses de outros países, donde muitas vezes se distanciam em muito no aspecto econômico, jurídico, político e social. Assim, devemos voltar nossos olhos para o centro de nosso ordenamento jurídico, qual seja, a Constituição. Ela nos revela a importância de nossa profissão em países como o Brasil, onde há uma enorme desigualdade, além da perpetuação de uma série de injustiças diárias que ocorrem intra e extra fórum. Não atoa que, nos primeiros artigos da nossa Carta constitucional, há uma série de fundamentos e objetivos que nos mostram um País carente de concretização de direitos básicos para qualquer pessoa. Eis então, o imprescindível atendimento ao disposto do Art. 133 deste diploma legal, que expõe a indispensabilidade dos advogados. Esse dispositivo pode, muito bem, nos (re) lembrar a célebre frase do personagem Diadorim no romance nacional Grande Sertão: Veredas, em diálogo com outro personagem, o jagunço Riobaldo, quando aquele diz para este: "Carece de ter coragem". Devemos, pois, "carecer" de ter a coragem necessária de efetivar a Constituição. Para além do (natural) medo e nervosismo inicial, e sem ignorar o nosso agir estratégico enquanto advogados, devemos possuir um sentimento, se quisermos levar o nosso país a sério, e suas peculiaridades regionais e históricas, de que podemos fazer a diferença. E isto pode acontecer tanto na busca do aperfeiçoamento de nossa classe profissional (e aqui vai o exemplo do fortalecimento da defesa das prerrogativas das garantias da profissão), na contribuição acadêmica/doutrinária, criando teses que vão de acordo com a realidade constitucional de nosso país ou na inovação de procedimentos que possam contribuir com a facilitação pragmática (mas sem esquecer da teoria) do dia a dia forense.

Tão importante quanto à defesa das prerrogativas das garantias da profissão, outro ponto imprescindível é que o (a) jovem advogado (a) busque seu aprimoramento, se especialize em uma ou duas áreas que ele tenha mais afinidade, que se torne um expert naquele assunto. Afinal sabemos que o (a) advogado (a) não precisa, necessariamente, saber de todos os ramos do direito, mas para que tenha êxito em sua carreira, precisará dedicar-se ao estudo focado em sua área de atuação.

Ademais, cumpre destacar ser necessário na iniciação da advocacia que o (a) jovem advogado (a) busque parcerias para que o início não seja tão dificultoso, pelo menos para aqueles que não tiveram a oportunidade de estagiar, seja por trabalho incompatível ou por qualquer outra razão e terão que começar a ‘advocacia do zero’, como é costumeiro ouvir. Estas parcerias podem ser com colegas que também estejam iniciando na advocacia e/ou com colegas advogados mais experientes que possam e queiram compartilhar conhecimento e experiências.

Outro ponto relevante e atual é que o (a) jovem advogado (a) use as redes sociais, evidentemente com a devida cautela para não incorrer em infração ética disciplinar. Mas de acordo com especialistas, o (a) jovem advogado (a) poderá publicar seus artigos, fazer postagens trazendo algum conteúdo jurídico a fim de esclarecer algum ponto significativo, como por ex. Auxílio Emergencial ou Trabalho Intermitente ou Dados Pessoais, enfim, alguma notícia recente voltada para o Direito. As plataformas digitais mais utilizadas são: Facebook, Instagram, que antes eram utilizadas apenas para postagens de lazer e divertimento, mas que agora estão sendo utilizadas para divulgação do perfil profissional e Linkedin, que sempre foi uma plataforma voltada às conexões profissionais. Há ainda outras, todavia algumas não são bem vistas no meio jurídico, como a utilização do Tik Tok, por exemplo. Se o (a) jovem advogado (a) está buscando uma vaga em um escritório de perfil mais conservador, é melhor que não faça postagens neste aplicativo!

Outra questão também importante é que o (a) jovem advogado (a) frequente a OAB e faça parte da Comissão da Jovem Advocacia, pois lá ele (ela) encontrará outros jovens advogados que, assim como ele (ela), estão iniciando na advocacia enfrentando, talvez, as mesmas dificuldades. Além do fato de também poder participar de oficinas, workshops com temas voltados à jovem advocacia, como por exemplo, prospecção de clientes, contratos de honorários, dentre outros assuntos pertinentes à advocacia no início de carreira. Ainda falando em comissões, há também as comissões temáticas que discutem diversos temas, como Direito do Trabalho, Direito Previdenciário, Compliance, Direito das Startups, dentre outras. Fazer parte das comissões da OAB auxiliará o (a) jovem advogado (a) a perceber, de fato, qual área lhe é afim, também fará seu Networking, conhecerá futuros parceiros e como dizem “quem não é visto, não é lembrado”!

Além disso, atualmente há uma nova forma de desenvolver a advocacia, o chamado empreendedorismo jurídico ou advocacia empreendedora, onde o (a) jovem advogado (a) tem a oportunidade de desenvolver habilidades como prospecção de clientes, gestão de negócio, competência multidisciplinar, não podendo esquecer, portanto de que, além de desenvolver estratégias para gerir seu negocio, precisará ter um excelente conteúdo jurídico.

Não podemos nos esquecer da Defensoria Pública, que muitas vezes é o início da prática na advocacia de muitos jovens advogados, seja como advogado dativo ou como voluntário. Na Defensoria o (a) jovem advogado (a) atende os assistidos, ouvindo-os em seus problemas e, fazendo o possível para resolver a questão. É alí que o (a) jovem advogado (a) desenvolve, ou deveria desenvolver, o que lhe é primordial, a escuta ativa, ouvindo o assistido demonstrando interesse verdadeiro no seu caso. Há quem diga que a passagem pela Defensoria Pública foi como uma escola prática para o início da advocacia.

Não menos importante, o (a) jovem advogado (a) precisará também, aprender outro idioma, ou outros idiomas, sabemos que o inglês é fundamental, assim como nossa língua pátria. Entretanto, ter além do inglês, mais uma ou duas línguas estrangeiras no currículo, será de grande importância para o (a) advogado (a), principalmente se ele (ela) quiser fazer uma especialização fora do Brasil.

Com isto, concluímos que o (a) jovem advogado (a) precisa especializar-se, conhecer a fundo as prerrogativas e o Estatuto de Ética e Disciplina da OAB, participar das Comissões, fazer networking e parcerias, fazer o bom uso das redes sociais, escrever artigos e, defender o direito de seus clientes. Afinal, a advocacia não é profissão de covardes, de acordo com Sobral Pinto e é preciso muita coragem para enfrentar o início da advocacia e muita coragem para fazer a diferença em um país com uma enorme desigualdade social, como é o caso do Brasil. Em suma, não é nada fácil ser apenas um advogado latino americano ou melhor dizendo, um jovem advogado latino americano!

* TEXTO ESCRITO EM COAUTORIA COM A ADVOGADA VALÉRIA PÉRIS.

  • Valéria Peris R Zannoner é Advogada, pós graduanda em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho e Direito Empresarial pelo Legale. Profissional de Privacidade de Dados pela TI Exames. Em especialização em direito Digital pela IDP.Vice-Presidente da Comissão da Jovem Advocacia da 100ª. Subseção Ipiranga/SP.

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